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Com HackDay, grupo que clonou Blog do Planalto quer turbinar transparência da política na web

3, outubro, 2009

Haroldo Ceravolo Sereza e Lilian Ferreira
Do UOL Notícias e do UOL Tecnologia
Em São Paulo

Blog do Planalto, Blog da Petrobras, governantes e parlamentares no Twitter, liberação de debates na internet, lista de salários da prefeitura se São Paulo na rede: em 2009, as palavras política e internet andaram juntas como nunca - seja em harmonia, seja em confrontos acalorados.

Para fazer política e internet rimarem, também, com transparência, o grupo de pesquisadores e programadores que criou o clone do Blog do Planalto organiza hoje o HackDay e, amanhã, apresenta os resultados do encontro. Quem quiser acompanhar pelo Twitter, as informações serão agregadas com a tag #thackday.

O evento, que acontece na Casa de Cultura Digital, reunirá especialistas e técnicos para discutir meios de disponibilizar informações públicas na rede. Mas o grupo não ficará só na conversa: vai também desenvolver ferramentas que misturam os dados com mapas e outros recursos que facilitam seu entendimento.

“O HackDay é uma iniciativa voltada pra estimular essa cultura de participação política por meio das novas tecnologias. Queremos formar uma pequena, mas expressiva comunidade voltada para o exercício e multiplicação de valores e de diversos novos aplicativos que possibilitem a ação política na internet” , diz Daniela Silva, organizadora do encontro.

Leia abaixo entrevista, por e-mail, com ela.

UOL - Vocês criaram o clone do Blog do Planalto. Como avaliam a experiência, o número e a qualidade dos comentários, logo após a novidade e agora?
Daniela Silva -
Foi divertido. E instigante. É. Acredito que o mais interessante foi notar que as pessoas realmente se interessaram pelo ocorrido, mais até do que a possibilidade de comentar - e foram mais de 3.000 comentários nos dois primeiros dias. O que realmente tocou as pessoas foi a possibilidade de uma real reação política. De alguma forma, mostrou que temos como reagir para além da reclamação pura e simples. A rede permitiu esse tipo de inversão de poderes e papéis, fez isso na comunicação e está fazendo na política.

Hoje já são mais de 10 mil comentários no blog e todo dia surgem novos. Claro que o importante não é a quantidade, mas para o propósito do clone, tão pouco é a qualidade. Os comentários na rede refletem a nossa própria diversidade… e acabam sendo tão diversos quanto os comentários sobre o arbitro do jogo na frente da televisão.

UOL - O que essa experiência tem a ver com o HackDay?
Daniela Silva -
O clone do Blog do Planalto tinha como objetivo fazer uma “provocação” e convidar a sociedade a pensar que as possibilidades de participação política na rede vão muito além da caixa de comentários de um blog - a internet é um ambiente de discussão por definição. O HackDay se relaciona com isso porque também é uma iniciativa voltada pra estimular essa cultura de participação política por meio das novas tecnologias, com foco tanto nos cidadãos inseridos na rede, quanto no poder público.

UOL - O que de mais importante deve ocorrer no HackDay? O que vocês acham que terão no fim do dia?
Daniela Silva -
Acreditamos que o que vai acontecer de mais importante durante o HackDay é a emergência de um grupo de pessoas que passam a repensar os processos políticos, apoiadas nas possibilidades das novas tecnologias. Depois dessa imersão no contexto da rede, olhando para valores como abertura, transparência, colaboração e participação política, acredito que teremos uma pequena, mas expressiva comunidade voltada para o exercício e para a multiplicação desses valores - além, é claro, de diversos novos aplicativos que possibilitem a ação política na Internet.

UOL - Vocês pegarão dados já disponibilizados pelo governo e apresentarão de outra maneira? Qual a ideia?
Daniela Silva -
A ideia é trazer um grupo interdisciplinar de pessoas que vai formar pequenos times e retrabalhar dados públicos disponíveis na rede. Isso pode ser feito extraindo esses dados de sites da administração pública - o que nem sempre é fácil, pois os formatos e a falta de atualização não ajudam -, ou se apoiando em dados já “raspados” por outros desenvolvedores (o pessoal do ParlamentoAberto, por exemplo, já tem experiência nisso e estará no HackDay, participando da ação).

Também poderemos contar com algumas bases de dados liberadas em formato mais “amigável” por conta do evento. O Seade, por exemplo, nos cedeu em CSV (formato de tabela do Excel) uma base chamada Perfis Municipais, com aproximadamente 40 indicadores sobre todos os municípios do Estado de São Paulo. Estamos conversando com a Corregedoria Central da União, que cuida do Portal da Transparência, e possivelmente também teremos dados cedidos por eles para usarmos durante o fim de semana.

A partir dessas bases ou de outras fontes de informação governamental disponíveis na internet, a ideia é que os participantes do evento construam “mashups” desses dados com tecnologias abertas. Um exemplo: sabemos que um dos grupos que virá ao HackDay quer trabalhar com dados do Inep (Instituto Nacional de Educação Pública) sobre as escolas do país que oferecem Educação de Jovens e Adultos. Esses dados, que estão numa tabela de 4.000 linhas, serão georreferenciados em um mapa, que vai ficar na rede para que outros grupos - ações sindicais ou associações de bairro, por exemplo - possam registrar, no futuro, a demanda de adultos que precisam de alfabetização e educação.

Ou seja: se o governo publica a informação bruta, em licença livre e em formato que possa ser lido por máquina, nós, a sociedade, tomamos conta de criar boas interfaces para a visualização desses dados, ressignificando-os em outros contextos e tornando-os, de fato, públicos.

UOL - Os aplicativos criados ficarão disponíveis para o público? Vocês pensam em fazer mais mecanismos que forcem a transparência pública ou ficar apenas nos desenvolvidos no evento?
Daniela Silva -
Todos os aplicativos criados serão documentados e disponibilizados em licenças livres, pra que não somente possam ser usados pelo público, mas também possam ser republicados em outros espaços, remixados por outras pessoas, copiados e abastecidos com dados de outras regiões. Nós pensamos sim em produzir mais mecanismos como esses. Uma das ideias do HackDay é criar escopo pra montar, num futuro próximo, uma comunidade de prática que pense constantemente em formas de trabalhar com transparência pública e governo aberto na internet, dando continuidade a esse trabalho.

UOL - Na opinião de vocês, como e quanto a internet contribuiu para aumentar a transparência dos governos?
Daniela Silva -
Só o digital já contribui muito para aumentar o potencial de transparência dos governos. A simples possibilidade de digitalizar um dado, e com isso tornar possível a sua distribuição além das fronteiras físicas, bem como a redundância desses dados em diversas bases, já traz mais transparência governamental do que se todas essas informações estivessem sendo mantidas dentro dos arquivos de ferro de um escritório qualquer. Por conta do potencial de participação e de colaboração, a internet pode contribuir muitíssimo para que esse conceito de transparência exista em duas frentes - não apenas nos governos, mas também na sociedade, que pode passar a atuar de forma crucial nesse processo. Ainda temos um longo caminho pela frente - mesmo o entendimento desses conceitos é muito incipiente no Brasil. Mas com certeza a internet já contribui muitíssimo pra que as pessoas repensem o seu papel nesse novo contexto.

UOL - Vocês identificam nos governantes um certo desejo de usar a internet apenas como ferramenta de promoção, e não de transparência?
Daniela Silva -
Nós identificamos que o entendimento que os governantes têm das possibilidades da internet como ferramenta política - muito mais do que como ferramenta de promoção - é muito imaturo. Muito diferente do que acontece com a mídia de massa, a internet abre espaço para uma multiplicidade de opiniões e discursos, e num contexto como esse, o uso de qualquer ferramenta tem que estar ligado a uma preocupação real com os valores que se pretende divulgar. A “transparência” tem toda a chance de se tornar “palavra mágica” dos próximos processos eleitorais, por exemplo. Mas contando com o poder de interação e fiscalização da rede, esse conceito só vai realmente ter fundamento quando for, de fato, um valor real da administração pública.

UOL - Blog do Planalto, Blog da Petrobras, políticos no Twitter, liberação de debates na internet, lista de salários da prefeitura se São Paulo na rede: como vocês acompanharam o debate político na web neste ano?
Daniela Silva -
Acreditamos que qualquer possibilidade de comunicação que independe de mediação é interessante e benéfica pro debate democrático. Da mesma forma, isso muda completamente como os cidadãos devem se posicionar nesse debate. O entendimento de que se tratam de muito mais fontes de informação, com diferentes interesses em jogo, passa a ser ainda mais essencial.

Transparência Hack Day
Dias: 3 (9h às 18hs) e 4 (9h às 16h) de outubro
Apresentação final (aberta ao público): dia 4 de outubro, das 16h às 18h.
Inscrições: gratuitas, no site http://esfera.mobi
Local: Casa de Cultura Digital, Rua Vitorino Carmilo, 453, casa 2, Santa Cecília, São Paulo, SP
Informações: (11) 3151 5075 ou contato@esfera.mobi

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Para criadora do clone do Blog do Planalto, portais não facilitam uso dos dados pela sociedade

3, outubro, 2009

Haroldo Ceravolo Sereza e Lilian Ferreira
Do UOL Notícias e do UOL Tecnologia

O UOL pediu a Daniela Silva, organizadora do HackDay e uma das responsáveis pela criação do clone do Blog do Planalto, para fazer uma análise de portais governamentais.

Ela analisou as páginas principais dos portais do governo federal e dos governos estaduais de São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Amazonas.

Para Daniela, eles têm um problema em comum: “Nenhum desses portais libera as suas informações em uma licença expressamente livre, uma das características que permitiu, por exemplo, a clonagem do Blog do Planalto”, diz. “Algumas pessoas defendem que o princípio constitucional da publicidade já permite que essas informações sejam ressignificadas pela sociedade, mas seria de grande avanço que esses portais expressassem claramente a vontade de verem esses conteúdos sendo remixados pelas pessoas”.

Mas essa não é único problema: eles também não liberam dados em formatos processáveis por máquinas, “formatos que podem ser usados por desenvolvedores para criarem “mashups” e novos aplicativos”. Isso permite que os dados sejam usados de modo a tornar, por exemplo, informações mais compreensíveis para um número maior de pessoas, por meio de gráficos ou mapas. Para Daniela, esse é um “passo importantíssimo” para “dados públicos possam ser considerados, de fato, públicos”.

Ela também questiona o fato de alguns portais, caso de São Paulo e Amazonas, trazerem fotos dos governadores, o que pode contrariar o princípio constitucional da impessoalidade da comunicação dos governos com o público.

“Até que ponto a publicação dessas fotos na rede é legítima? Ou até que ponto isso é problema, considerando a dinâmica da rede? Essas são questões que ainda estão longe de ter resposta, mas que certamente precisam ser revistas por todos nós - preferencialmente, numa reflexão coletiva, e com abertura pra novas formas de se entender os processos políticos”.

Também por conta do princípio da impessoalidade, há quem defenda “que o blog tem que ser ‘do Planalto’ e que o Lula não pode ter um Twitter”, diz. “Mas acontece que a internet é um meio altamente direcionado à personalização, por conta da possibilidade de cada pessoa se posicionar como um ‘falante’ do discurso público -inclusive os políticos. Então, será que o Lula não pode -ou melhor, será que ele não deve- ter um Twitter?”

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